NANDA ROVERE CULTURAL
NANDA ROVERE CULTURAL

Valorização da cultura brasileira



Comments: Segunda-feira, Junho 22, 2009



Cultura e descontração

Desde a chegada dos Satyros, em 2000, a Pça Roosevelt tem chamado a atenção pela arte que brota através dos espaços culturais ali instalados e a vida noturna agitada nos barzinhos com as suas mesas nas calçadas



Até o início desta década, andar pela praça Roosevelt, localizada no centro de São Paulo, não era um passeio típico do paulistano apreciador de cultura.
A praça, criada no final dos anos 70, era freqüentada por públicos diversos nos anos 80 (hippies, intelectuais, revolucionários, censores da ditadura, etc) e tinha como ponto principal o charmoso Cine Bijou, que recebia personalidades como Jô Soares.
Nos anos 90, a região estava abandonada pela administração pública e tomada por bandidos, traficantes, viciados e prostituição. Era evitada por muitos paulistanos.
Em 2000 o grupo teatral Os Satyros, cujos fundadores são Rodolfo García Vázquez e Ivam Cabral, fixaram residência na Roosevelt. Os Satyros possuem uma história interessante, com um cotidiano pautado pela ocupação de vários espaços no Brasil e exterior, por viagens, elencos diversos e um número significativo de produções nos seus 20 anos de existência. Para eles, teatro não é só entretenimento e sim um meio de indagações sobre a vida, sobre o agir e pensar dos seres humanos. Pelo uso de uma dramaturgia forte e de qualidade, com o objetivo de chocar com coerência e dar voz a personagens marginalizados pela sociedade, a conquista de um público cativo não foi fácil. Aos poucos o público foi chegando e os críticos, que relutavam em ir até a praça, foram cedendo. Os Satyros ganharam a atenção da mídia e espaços comerciais e culturais já existentes foram conquistando um público cativo; outros foram se instalando no entorno dos Satyros, cada um com estilo próprio.

Teatros

O Teatro do Ator, por exemplo, tem uma história que contempla o auge e a queda da Roosevelt. No final dos anos 60, era o Cine Bijou. Em 1999, a Recriarte - Escola de Arte investiu na reforma completa do chamado ¨primeiro cinema de arte de São Paulo¨ e inaugurou o Cine Teatro Recriarte Bijou. Mesmo antes da chegada dos Satyros obteve uma quantidade significativa de espectadores e em 2007, com o nome de Teatro do Ator, se inseriu na efervescência cultural do lugar.
Importância decisiva para reforçar o movimento artístico da praça, tiveram os Parlapatões, que deixaram o bairro de Pinheiros em 2006 e criaram o Espaço Parlapatões. Assim como os Satyros, realizam programação diversificada e recebem inúmeros espectadores.
A Cia da Revista há quase três meses abriu a sua sede no número 108 da Praça e aposta num trabalho intimista e impactante. Num misto de bar e teatro, seguindo a tendência das demais salas de espetáculos do lugar, os sócios Kleber Montanheiro (diretor) e Marília Toledo (dramaturga) acreditam na força da praça como lugar de fomento cultural: ¨O "miniteatro" consolida uma parceria de dez anos que tenho com o Kleber. A praça Roosevelt é um ponto importante de encontro de artistas e formadores de opinião de São Paulo e como já existe uma atenção da mídia e a frequência de um público que aprecia teatro, não há lugar mais propício para quem decide abrir um teatro sem patrocínio. Temos que ir para onde o público está¨. diz Marília. O Studio 184 , ao lado do Teatro do Ator, a Cia Galharufas (instalada recentemente) também merecem atenção.
O integrante dos Satyros e morador da Roosevelt Germano Pereira salienta que a Praça é a Mont Martre Parisiense, um ponto turístico internacional. ¨Talvez aqui seja o lugar por metro quadrado do Brasil que tenha mais artistas, e pensadores reunidos. É um grande festival, só que o ano inteiro¨, afirma.

Teatro e Comércio

Mas não é só pelos teatros que a efervescência é sentida por quem passa pela região à noite. A presença de estabelecimentos comerciais são essenciais para garantir o fluxo de pessoas antes e depois das sessões teatrais, já que funcionam até mais tarde para conquistar os visitantes da praça. A Barbearia e Charutaria Diplomat está lá há mais de 40 anos e a revitalização impulsionou o proprietário Renato Oberdelli a continuar ampliar o horário de funcionamento. O que antes era a boate Djalma’s, onde a cantora Elis Regina realizou seu primeiro show em 1964, há quatro anos é o bar Papo, Pinga e Petisco, que chama a atenção pelas peças de antiguidade na decoração. Outro estabelecimento que não passa despercebido é a HQMix Livraria por receber visitantes ilustres como Laerte e Chico Caruso. Gualberto Costa, dono da Livraria, afirmou que o desenvolvimento artístico do lugar o impulsionou a inaugurar a HQ Mix há dois anos.
O cartunista e dramaturgo Ruy Jobim Neto, freqüentador da Livraria e dos teatros, opina: ¨ O que mais me atrai na vida cultural daqui é o conjunto dos equipamentos culturais que foram se instalando, desde 2000, com a chegada do Satyros (livraria, os sete teatros, os bares e cafés)¨. Segundo Ruy, os grupos estão lá por causa de muita teimosia e de muito suor. ¨Deveriam receber mais apoio dos moradores e deveria ser mais divulgada a importância da praça Roosevelt dentro do quadro cultural da cidade¨, acredita.
O dramaturgo e jornalista Sergio Roveri complementa o raciocínio de Neto: ¨A praça se tornou uma espécie de vitrine de um tipo de teatro que se faz hoje em São Paulo. Um teatro preocupado com a pesquisa, preocupado em ser atual e verdadeiro, e acima de tudo um teatro que se faz na raça, em que atores, autores e diretores arregaçam as mangas juntos para colocar seus trabalhos em pé. Além disso, a praça se transformou também em ponto de encontro de artistas de diversas áreas. E normalmente de tais encontros costumam nascer coisas muito bacanas¨.

Noite na Praça

As noites fervem durante as apresentações teatrais, seja nas platéias dos teatros, seja nos bares. Depois das 22h é difícil encontrar mesas nos Satyros, Parlapatões, no tradicional bar La Barca e no Papo, Pinga e Petisco. Atores, alternativos, jornalistas, público jovem, escritores, pensadores, gente de todas as tribos possíveis se encontram na Roosevelt.
Quem acompanha a programação dos teatros pode assistir a espetáculos nos horários tradicionais de apresentações e à meia-noite, nas sextas e sábados. Muitas vezes a grade de programação dos Satyros e Parlapatões está ocupada de segunda a segunda.
Todo mês de outubro quem passa pela localidade percebe uma movimentação atípica, com ocupação das ruas e calçadas. São as Satyrianas, evento que comemora a chegada da primavera e oferece aos paulistanos uma maratona cultural ininterrupta de atividades culturais, com a duração de 78 horas. Uma celebração ao teatro e às artes, que em 2008, na sua nona edição, contou com espetáculos, exposição fotográfica, tenda de cinema, tenda destinada à dramaturgia, etc. A idéia é democratizar o acesso, pois o preço dos ingressos para as peças são definidos pelos espectadores e as demais atividades são gratuitas.
As Satyrianas foram idealizadas pelos Satyros e com a chegada dos vizinhos artistas, todos produzem programações especiais para esses dias. Atores famosos como Antonio Fagundes, Mariana Ximenez e Adriane Galisteu já participaram da maratona cultural.
O ramo imobiliário festeja a valorização dos imóveis. Em depoimento para o Jornal O Estado de SP, o síndico de um dos edifícios que ficam de frente para a Roosevelt, Sebastião Moreno, informou que um apartamento chega a custar R$ 150.

Transformação e desenvolvimento

A arte paulistana ganhará mais um importante empreendimento: A escola de teatro, que ocupará um prédio desocupado da praça e tem a sua inauguração prevista para outubro ou novembro próximo. O objetivo é transformar a escola em referência, beneficiando jovens carentes com cursos profissionalizantes em iluminação, sonoplastia, figurinos e cenários, além de áreas que ainda não possuem uma formação regular, como dramaturgia e humor.
Rodolfo García Vázquez, salienta que a praça representa o poder de transformação do teatro e se constituiu numa ¨casa¨ que abriga todos os artistas. Para ele, a praça está borbulhante e ativa, cheia de projetos e de pessoas criativas, as quais vêem na Praça o lugar ideal para se manifestar artisticamente.
Dizer que a violência terminou pela presença dos artistas não condiz com a realidade, pois ela continua embaixo da marquise, onde os sem-teto e alguns traficantes se encontram, mas a violência na calçada dos teatros é praticamente inexistente e o pontapé inicial para a diminuição de atos de vandalismos foi dado pelos Satyros.. A praça Roosevelt é hoje um dos maiores núcleos culturais e sociais da cidade de São Paulo.


ENTREVISTAS COMPLETAS:

Rodolfo, um dos fundadores dos Satyros

-Como vê a vida cultural da Pça hoje e há interação entre vocês , grupos, que ocupam o local?
RODOLFO - Sim, temos uma boa interação com os grupos que ocupam a Praça, especialmente com os Parlapatões. São parceiros de várias empreitadas.
A Praça está borbulhante e ativa, cheia de projetos e grupos de pessoas criativas e que vêem na Praça o lugar ideal para se manifestar artisticamente.
É uma casa que abriga todos os artistas.

-E como está a questão da violência no entorno da Pça?
RODOLFO - A violência na calçada dos teatros é praticamente inexistente...mas ela continua, sim, especialmente embaixo da marquise da Praça, onde os sem-teto e alguns traficantes se encontram. Nem tudo está resolvido na Praça.

-Sabe como estão os projetos de revitalização da Pça, como a questão do Pentágono?
RODOLFO - Parece que está sendo feita uma licitação para a reforma da Praça. Segundo algumas previsões, até o final do ano que vem a Praça deve estar sendo reformada.

-A que pé está o projeto da escola de teatro e o que ela trará de benefício para a Pça e para o teatro paulistano?
RODOLFO - A escola de teatro deve começar nas próximas semanas. As atividades de inauguração da escola estão previstas para outubro ou novembro próximo. As aulas começam em fevereiro do ano que vem. A ideia é de que a escola da praça possa beneficiar jovens carentes que encontrarão nela um excelente meio de se profissionalizar (em áreas como iluminação, sonoplastia, figurinos e cenários, técnicas de palco) e também em áreas que até hoje não encontram uma formação regular, como dramaturgia e humor. A ideia é de que se transforme em escola de referência para as artes do palco.

-Vinte anos dos Satyros e quase dez na Pça...o que mais te encanta na Roosevelt?
RODOLFO - A Praça representa o poder de transformação do teatro. Poder de recriar uma região da cidade, propor novas formas de urbanidade e cultura. É o exemplo vivo do poder do teatro, que nenhum político ou descrente poderá negar.

-Quais ¨tribos¨ vc encontra por lá?
RODOLFO - Atores, alternativos, jornalistas, público jovem, público nem tão jovem, escritores, pensadores, gente de todas as tribos possíveis se encontram na Roosevelt.

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Sergio Roveri – jornalista e dramaturgo. Peças como Abre As Asas Sobre Nós e A Coleira de Boris foram encenadas na Pça

-Qual a importância da pça, hoje, para a vida cultural paulistana
SÉRGIO ROVERI - Eu acredito que a praça tenha se tornado uma espécie de vitrine de um tipo de teatro que se faz hoje em São Paulo. Um teatro preocupado com a pesquisa, preocupado em ser atual e verdadeiro, e acima de tudo um teatro que se faz na raça, em que atores, autores e diretores arregaçam as mangas juntos para colocar seus trabalhos em pé. Além disso, a praça se transformou também em ponto de encontro de artistas de diversas áreas. E normalmente de tais encontros costumam nascer coisas muito bacanas.

-Quais os aspectos positivos da pça (que a presença dos espaços culturais deram destaque) e quais os pontos negativos que vc percebe quando está por lá ( que ainda a presença desses grupos não conseguiu combater)?
SÉRGIO ROVERI - O lado mais positivo é a diversidade da produção teatral que se revela ali. É a efervescência de grupos, de textos, de autores, é esta capacidade que a praça tem de renovar a cena teatral paulistana. O lado negativo continua sendo um certo descaso em relação à conservação do ambiente. Devia ser um local mais iluminado, mais bonito e que transmitisse uma sensação de segurança maior que a que temos.

-O que te leva a frequentar a pça e como foi a experiência de ver os seus textos encenados nos Satyros?
SÉRGIO ROVERI - Os Satyros têm um papel fundamental na consolidação da minha carreira. Minha primeira peça a entrar em cartaz, Vozes Urbanas, foi recebida nos Satyros Um, inaugurando o horário alternativo das terças e quartas. Depois dela, vieram outras, como Abre as Asas Sobre Nós e A Coleira de Bóris. Minha ligação com o grupo não é só profissional, sou amigo deles e ali me sinto em casa. Frequentar a praça para mim significa encontrar bons amigos e ver, na maioria das vezes, bons espetáculos também.

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Germano Pereira está em cartaz com Lady Chatterley e também com Liz, dos Satyros

-Qual a importância da presença dos grupos de teatro na Roosevelt ( e dos bares que fazem parte dos espaços), com relação a revitalização da região?
GERMANO PEREIRA - Os teatros sempre tiveram uma função social muito grande na história da humanidade. Se o teatro está morrendo é porque seu país também está morrendo. E isso não poderia ser diferente aqui na praça Roosevelt. Me lembro quando eu e Ivam Cabral chegamos aqui na praça no final do ano 2000 e alguma coisa dizia que ali era o lugar ideal. Não sabíamos exatamente o porquê, pois nada ajudava. A situação da praça não era das melhores, todos sabem. Então, logo depois chamamos Rodolfo Garcia Vazquez para ver se ele também gostava do lugar como nós de cara havíamos gostado. Ele sentiu a mesma sensação. E a partir desta data uma transformação social estava em imanência. Os Satyros viriam a dar o ponta pé inicial naquilo que hoje representa um dos maiores núcleos de transformações sociais da cidade de São Paulo.

A que você credita o sucesso desses ¨empreendimentos culturais¨, já que no início a mídia não divulgava o trabalho dos Satyros?
GERMANO PEREIRA - Na comunhão de inúmeros fatores e pessoas trabalhando para toda essa estrutura seguir adiante. E isso exige trabalho, paixão, e foco coletivo.

Como é se apresentar na Roosevelt e quais as qualidades que ela apresenta para a escolha da realização de temporadas nos teatros instalados da Pça?
GERMANO PEREIRA - Eu adoro ficar em cartaz na Praça Roosevelt. Atualmente estou com dois espetáculos, como você sabe, O Amante de Lady Chatterley, no qual escrevi para o teatro e também atuo, com direção de Rubens Ewald Filho; e Liz, do Cubano Reinaldo Montero, direção de Rodolfo, com elenco da Companhia. No Satyros 2 e Satyros 1 respectivamente. E como moro na praça sou suspeito para falar sobre isso. Mas aqui se faz um teatro de vanguarda. A praça é a Mont Martre dos pintores parisienses. Aqui estamos vivendo um momento histórico do teatro brasileiro, da cultura em geral. Quem não conhece a praça ainda, não pode deixar de con hecer. Talvez aqui seja o lugar por metro quadrado do Brasil que tenha mais artistas, e pensadores reunidos. É um grande festival, só que o ano inteiro. Agora mesmo acabei de tomar café com uma amiga, a Tucca, que estréia espetáculo esta terça às 21 horas, com texto de Mario Bortolotto. E os atores enquanto tomavam café discutiam ardentemente a construção de uma cena, um dia antes de estréia. Aqui é um lugar que as pessoas se reúnem não só para festejar, mas para pensar e criar o homem atual. Ou pelo menos entendê-lo.

O que mais te chama a atenção no trabalho dos Satyros?
GERMANO PEREIRA – Os Satyros é uma companhia atuante e inquieta, que trabalha incessantemente, estimula milhares de pessoas, como eu, e outros tantos amigos: A seguir adiante... Pensar o outro, o mundo, as questões subjetivas, a arte, a filosofia. O Satyros é um processo, não uma meta final.


Marília Toledo – a dramaturga é co-proprietária do miniteatro

- Na sua opinião, quais os atrativos da Pça Roosevelt?
MARÍLIA TOLEDO - A Praça Roosevelt é um ponto de encontro de artistas e formadores de opinião de São Paulo. Já existe uma atenção da mídia e a frquência de um público que aprecia teatro. Nada mais propício para quem decide abrir um teatro sem patrocínio. Temos que ir para onde o público está.

- Como está sendo a experiência de se apresentar na Pça ?
MARÍLIA TOLEDO - O fato de estarmos na Praça Roosevelt não mudou o estilo do nosso trabalho, mas as características físicas do "miniteatro" sim. Estamos mais concisos em relação aos cenários e figurinos e buscando um tipo de trabalho intimista, porém forte e impactante.

- Qual a importância do Miniteatro na trajetória da Cia?
MARÍLIA TOLEDO - O "miniteatro" consolida uma parceria de dez anos que tenho com o Kleber e faz com que os atores que compõe a Cia da Revista se sintam mais comprometidos e estimulados. Para um trabalho de pesquisa é fundamental ter uma sede, um espaço físico para ensaios e encontros.

- Qual é a relação entre a Cia da Revista com os outros grupos que estão na Pça?
MARÍLIA TOLEDO - Temos uma relação de amizade grande com os Parlapatões. Eles nos ajudaram muito durante o período de reforma e inauguração do espaço. Os outros grupos também nos receberam muito bem, mas profissionalmente ainda não estabelecemos nenhuma relação.





postado por: NANDA ROVERE 10:04 PM


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